fotografia

Uma linguagem fotográfica engajada

25 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

foto de Claudia Andujar, da série “Marcados”

Em 2009 a fotógrafa Claudia Andujar publicou pela CosacNaify o livro Marcados, composto por 85 fotos dos índios Yanomami realizadas entre 1981 e 1983, durante uma viagem de levantamento das suas condições de saúde após o contato com o branco. Para a catalogação dos registros, como os Yanomami não respondem a nome próprio, foi adotado o método, consagrado desde o século XIX para a identificação dos povos nativos, que consiste em uma fotografia do indivíduo com um número preso ao corpo. O conjunto das fotos transformado em livro apresenta-se como um profundo questionamento sobre as relações que povos exercem sobre outros, marcando-os e determinando a extensão de sua sobrevivência.

Claudia Andujar (1931) nasceu na Suíça e vive no Brasil desde 1955. A fotógrafa participará da Flip deste ano, na mesa também intitulada “Marcados”, que dividirá com Davi Kopenawa, representante dos índios Yanomami.

Na abertura do livro, ela escreve:

1944 – Aos treze anos tive o primeiro encontro com os “marcados para morrer”. Foi na Transilvânia, Hungria, no fim da Segunda Guerra. Meu pai, meus parentes paternos, meus amigos de escola, todos com a estrela de Davi, visível, amarela, costurada na roupa, na altura do peito, para identificá-los como “marcados”, para agredi-los, incomodá-los e, posteriormente, deportá-los aos campos de extermínio. Sentia-se no ar que algo terrível estava para acontecer. […]

1980 – Quase quarenta anos depois, já vivendo no Brasil como fotógrafa engajada na questão indígena, acompanhei alguns médicos em expedições de socorro na área da saúde. A partir de 1973, durante os anos do “milagre brasileiro”, o território Yanomami na Amazônia brasileira foi invadido com a abertura de uma estrada. Com a mineração, a procura de ouro, diamantes, cassiterita, garimpos clandestinos, e não tão clandestinos, floresceram. Muitos índios foram vitimados, marcados por esses tempos negros. […]

2008 – É esse sentimento ambíguo que me leva, sessenta anos mais tarde, a transformar o simples registro dos Yanomami na condição de “gente” — marcada para viver — em obra que questiona o método de rotular seres para fins diversos. Vejo hoje esse trabalho, esforço objetivo de ordenar e identificar uma população sob risco de extinção, como algo na fronteira de uma obra conceitual”.

Segundo Juan Esteves, fotógrafo e crítico, “na série de retratos Claudia Andujar não tenta exorcizar o método, muito menos justificá-lo. Para ela, tratava-se de um esforço na busca da sobrevivência destes seres humanos. Aquela mesma busca a que assistira nos judeus contemporâneos de sua infância. Um sentimento que desperta não só ambiguidade, mas uma digressão moral cujo papel na fotografia se torna extremamente importante. Os Yanomami “marcados” de Claudia Andujar não estão no caminho da morte, como ela mesmo ressalta. Ao contrário, seguem o caminho da vida. O registro de um ato humanitário, que encontra anos depois um conceito estético que transpõe o registro documental. […] Nestes belíssimos retratos, Claudia Andujar nos proporciona uma síntese de uma grande história que, se às vezes adquire contornos trágicos, às vezes também nos devolve a crença na restauração da ordem natural. Também confirma que na relação intrínseca entre a arte fotográfica e a realidade, a subjetividade ora torna-se presente, ora ausente por trás de cada olhar. […] cada retrato se distancia do mero registro antropológico. Cada Yanomami se transforma em protagonista da obra da fotógrafa, assim como assume seu papel de importância ao se posicionar com atitude. Esta confere reverência, ora irreverência. Em alguns momentos expressam sua intranquilidade, para instantes depois revelarem até mesmo certa sensualidade. Podem exibir tudo, menos a indiferença diante da câmera”.

Em entrevista, Andujar disse: “Fui cofundadora da CCPY [Comissão pela Criação do Parque Yanomami], lutamos durante quinze anos para conseguir que o governo brasileiro reconhecesse o direito do povo Yanomami a suas terras tradicionais, o que aconteceu em 1993. Em 1981, começamos a colocar em pé o projeto de saúde, ainda que com limitações financeiras e poucos profissionais preparados para enfrentar o desafio de trabalhar em campo e enfrentar situações difíceis. A política do próprio Estado de Roraima criou muitos empecilhos e desafios a contornar. Foi um pontapé num caminho tortuoso que até hoje segue com dificuldades”.

Davi Kopenawa já tem publicado um dos mais extensos livros da alta literatura etnológica, mediado pelo antropólogo francês Bruce Albert, La chute du ciel (“A queda do céu”), que, traduzido do idioma yanomae, narra a vida deste grande chefe. Seu monólogo, transcrito em 800 páginas e publicado na França pelas edições Plon de Paris em 2010, deve ser lançado no Brasil até o fim do ano pela Companhia das Letras. Os brancos, ou “napë pë”, que, no milenar idioma, é o oposto de yanomami (“gente”), com essa leitura podem dimensionar a riqueza da identidade do chefe e de seu povo e a opressão que lhes causa as máquinas e a fumaça canibal.

Claudia Andujar desenvolve um papel crucial na luta do povo indígena Yanomami, a que tem se dedicado desde o final da década de 1970. Ela estabeleceu seu primeiro contato com os índios devido a trabalhos fotojornalísticos, sobretudo desenvolvidos no período áureo da revista Realidade, e a realização de importantes ensaios fotográficos na companhia das tribos graças foi possibilitada por bolsas de estudos, brasileiras e internacionais. Seus trabalhos integram acervos de grandes museus, como por exemplo o MoMA, em Nova York.

Claudia Andujar tem também publicado, pela editora DBA, o livro Yanomami. Profundamente poético, reúne fotografias que unem intenções documentais a uma estética onírica. Através dos fortes contrastes, as fotos revelam o efeito da iluminação na completude de sua carga simbólica.

 

 

MARCADOS

Autor: Claudia Andujar
Editora: CosacNaify
Preço: R$ 73,50 (156 págs.)

 

 

 

 

YANOMAMI

Autor: Claudia Andujar
Editora: DBA
Preço: R$ 35,00 (104 págs.)

 

 

foto do livro “Yanomami”.

 

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